Ácido no estômago embrulhado
com uns jornais velhos,
uns nomes proferidos por alguém
E uma angústia incontrolável.
Refluxo
Parece a muitos que o mundo – ou melhor, que alguns lugares onde se comemora – pára quando em dia de Natal. As famílias, os amigos, os amores, os afetos se reúnem num só lugar, depois de tempos sem se lembrarem, apenas para comemorar a data, da qual menos importa, hoje, o evento religioso. E não é culpa do capitalismo ou do consumismo, menos ainda da ignorância de quem quer que seja. É algo que se tornou praticamente arbitrário, para alguns até natural. Fato cujos entretantos podem ser maiúsculos ou minúsculos.
Batidos, tão repetidos quanto os clichês da própria estação, o que diz respeito ao macro – às causas maiores – pode ser logo deixado de lado. Não valeria a pena repetir todas aquelas mágoas que, com certeza, já devem agora estar circulando por toda a blogosfera, redes sociais e conversas. Bom lembrar é, contudo, dos detalhes, daquilo que cotidianamente pisamos, e que, em época de Natal, não fazemos diferente. Provavelmente alguém cansado do trabalho, sozinho, perdido consolar-se-ia aqui neste momento.
Esta sensação inclusiva, do dito espírito natalino, não passa de mera ilusão, se vistos os cantos afastados dos enfeites e pisca-piscas – focados, no entanto, por fortes luzes. (Uma leve náusea pode surgir daqui em diante.) Pessoas iluminadas, na tentativa de se manterem acordadas, já que o contrário custaria caro demais enquanto há vidas a salvar, botões a apertar ou linhas a percorrer.
Ao voltar da ceia, o caminho, se bem observado, expõe bons casos. A companhia das ruas, dos transportes, vai, quando não em dupla, sozinha – há um destino a se chegar e quem espera não tem a noite inteira. Os problemas sequer imaginados não marcam hora para acontecer, e equipes, daqueles que renunciaram à família, têm, portanto, o dever de estar à espera, preparadas. Uma alma solitária, regulada pela própria ambição – às vezes confundida com um forte senso de responsabilidade, ou, dizem alguns, de altruísmo – tecla, escreve, calcula e se cansa, exaustivamente, ao mesmo tempo que delibera ações e ordens a subordinados também tão sozinhos assim.
Eles, em comum, crêem. Crêem, porque sabem o quão importantes são. E o quanto devem abdicar para não viver – pouco lhes importa; querem é mesmo elevar o espírito e tornar grande o quanto existiram. Alguns conseguem. Outros, não. A rotina deles se foi há muito. Capturaram o tempo e a medíocre noção de dia-a-dia não lhes funciona. Natal é só mais um dia… e não há fim de ano… e férias, depois de alguns anos, inexistem a eles.
Sem parar para alguma reflexão, companheiros assim, decerto, passariam despercebidos. Aliás, já passam. Como visto, mais ainda nesta estação, escondidos como pequenezas humanas do Natal ou, ainda, como meros serviços, seres aos quais um “boa noite”, “feliz natal” vêm automáticos; há quem diga que por mera educação. Pessoas, amigos que reconhecem a importância profissional, o gosto ou mesmo a tamanha necessidade própria ou alheia do que fazem.
Lembremos que eles existem, que também têm desejos e que gostariam tanto ou tão mais que qualquer um de nós de estar com a família, os amigos, o amor e os afetos. Pois lembrar disso não é, no entanto, forma alguma de pessimismo. É, sobretudo, uma luta. Uma tentativa de nos reaproximar de nossos próximos, nossos camaradas, reconstruir-lhes o significado tão importante que possuem na vida de quem quer que seja. Olhar e entender-lhes: a melhor forma de desejar um sincero feliz natal a quem agora está tão longe disso.
Deitado, num momento só, do prazer depois de assistir a um filme de Almodóvar, o problema de levantar-se. Fale com ela como num relâmpago, e as cenas passam pela mente, e se embaralham, e se misturam, e vêm e voltam. Momento nenhum deveria quebrar-se assim. E aí o vento vem vindo, vagando noite a dentro, vai ventando, vindo de novo, voltando, ventando frio… ventando, voando…
E a tela está azul. E vem vindo um som de fora, levando embora e trazendo um perfume, memória. Pressentimento, pensamento, sentimento. Tão logo tudo se foi, tão rápido se constrói. Deveria ficar ali, parado, sujeito a tantas sinestesias quantas vieram. Mas há ainda muito o que se fazer, mais outro segundo aqui parado poderia custar.
Levanto e desligo a TV.
Não se iluda pensando que eles não têm um plano. Eles têm sim; se eles não tivessem, as circunstâncias por si só os forçaria a desenvolver um. Uma conquista conduz a outra; uma vitória abre o apetite para mais vitórias. (Maquiavel, carta a Francesco Vettori).
[Citando Maquiavel, post para encerrar um mês e começar outro; afinal, eles têm sim um plano. De crescer e muito ambicioso].
Ainda gosto de andar a pé nessa loucura de cidade. É muita coisa acontecendo. Há sempre um perigo aqui ou acolá, “pelas ruas de São Paulo só se anda com cuidado”, como é que dizem os mais velhos. Pra mim, não. Por isso que reclamam tanto da vida. Tão preocupados, tão menos atentos ao que se passa, no caminho. Acho que menos importa o destino, andar a pé por aí tem um quê de mágico ou lúdico, afinal, dá pra ver tanta coisa…
Todo mundo olha pras moças bonitas. Só que, depois que elas passaram, será que alguém repara naquela torcidinha de pescoço, na maior cara de pau, do cara ao lado? Eu reparo. E quando quero, faço até melhor. Primeiro que não gosto dessa admiração excessiva pelas costas de ninguém. Depois, pra quê a pressa? Se a moça já passou e não deu pra ver, basta uma meia-volta, um contorno no quarteirão pra resolver a situação. Curioso, gosto de vê-las de frente, de perto se aproximando, do rosto bonito, dos olhos, da boca… Mas, nessas de ser curioso, também já passei por cada uma… Melhor deixar pra lá!
Na rua, mesmo quando falta companhia, nunca, porém, se está sozinho. Não existe caminhante solitário, isso eu já vi. A verdade é que todo mundo repara em todo mundo, e a galera da rua tá sempre junta. Quando uma velhinha tropeça, nossa!, é uma multidão. Fulano chama resgate, cicrano ajuda a levantar e beltrano já vem até com copo de água na mão – este não tava andando, mas tava em casa com um olho… Também, por mais egoísta que alguém seja, não tem como não amparar a vovozinha que saiu só pra comprar um agrado pros netinhos. É só reparar na sacolinha, quando ela tá levando alguma: ou tá voltando com um doce da padaria ou com os ingredientes pra fazer um.
Olha, rola até sentimentalismo, se for ver. Vem cada lembrança. Outro dia mesmo, eu, de um lado, indo; do outro, vindo um casalzinho de amigos mais ou menos de uns 12 anos de idade: um gordinho e a uma loirinha – dessas que vai ficar bem bonita quando crescer. Ai… Quanto tempo já não fora desde que se apaixonara pela loirinha? Aqueles dois ainda teriam muito para conhecer um do outro, muito mais para sentirem, muito para chorarem; talvez teriam muito até se separarem. E outras tantas memórias vão enquanto tantas outras vêm.
O problema é que, normalmente, a gente não aproveita o passeio. A gente só anda em frente, só olha pra frente e com pressa, muita pressa. E só queremos que seja assim, tem sempre alguém nos esperando, estamos sempre atrasados. Para quê eu não sei. Eu sei que não dá pra viver assim. Por isso gosto mesmo de andar a pé, porque quando o fim chegar e não houver mais caminho, do que é que terá valido a pena a caminhada?
[Crônica feita só para uma aula. Como acabei gostando dela, resolvi postá-la aqui.]
por Lobão
“Quem é você
Quem é você
Nas minhas mãos
Nas minhas mãos vazias
Você assim tão impossível
Em vão
E o impossível
É uma droga poderosa pra nós,
Reféns do que virá
Quem é você
Quem é você
Embalsamando ameaças
Numa fileira de santos
Que nenhuma beleza ilumina
E o impossível é uma droga perigosa o bastante
Para se inventar a fé
Para se acreditar na fé
Em alguma salvação
E eu deslizo
Pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Um cobertor
Talvez algumas lágrimas
Nos tornem um pouco mais inchados e vazios
É rapa…
Não há estilo sem fracasso
Talvez alguns sorrisos nos deixem um pouco mais silvio santos das nossas
[torturas
Pois a salvação floresce feliz como um escárnio
Lá onde os deuses não morrem nunca
Mas são recauchutados debaixo de nossas almas
Numa salvação que só interessa aos assassinos e aos santos
Numa salvacão triste como qualquer céu
Como num domingo
Como num suicídio
Como num êxtase
Que se desaprende
Eu
Deslizo pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Um cobertor
Deslizo pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Uma declaração de amor…”
Só damos atenção a algumas músicas depois que estas nos fazem sentido. Já a tinha em minha coleção há um bom tempo, mas só agora que criamos um forte laço – culpa dessa tal devastação da vida.
Não vê? Vai chover
Se ficar assim,
Na dor, teu prazer
Caindo só de mim
E querendo ser
Nessa hora o fim.
E doente de ter
A ilusão do sim
Como um só querer,
Razão pra viver,
De um gosto doce
De quem está a fim.
E acabar assim,
Se realmente fosse…




