Dez
13

Deitado, num momento só, do prazer depois de assistir a um filme de Almodóvar, o problema de levantar-se. Fale com ela como num relâmpago, e as cenas passam pela mente, e se embaralham, e se misturam, e vêm e voltam. Momento nenhum deveria quebrar-se assim. E aí o vento vem vindo, vagando noite a dentro, vai ventando, vindo de novo, voltando, ventando frio… ventando, voando…

E a tela está azul. E vem vindo um som de fora, levando embora e trazendo um perfume, memória. Pressentimento, pensamento, sentimento. Tão logo tudo se foi, tão rápido se constrói. Deveria ficar ali, parado, sujeito a tantas sinestesias quantas vieram. Mas há ainda muito o que se fazer, mais outro segundo aqui parado poderia custar.

Levanto e desligo a TV.

Nov
30

Não se iluda pensando que eles não têm um plano. Eles têm sim; se eles não tivessem, as circunstâncias por si só os forçaria a desenvolver um. Uma conquista conduz a outra; uma vitória abre o apetite para mais vitórias. (Maquiavel, carta a Francesco Vettori).

[Citando Maquiavel, post para encerrar um mês e começar outro; afinal, eles têm sim um plano. De crescer e muito ambicioso].

Nov
19

Ainda gosto de andar a pé nessa loucura de cidade. É muita coisa acontecendo. Há sempre um perigo aqui ou acolá, “pelas ruas de São Paulo só se anda com cuidado”, como é que dizem os mais velhos. Pra mim, não. Por isso que reclamam tanto da vida. Tão preocupados, tão menos atentos ao que se passa, no caminho. Acho que menos importa o destino, andar a pé por aí tem um quê de mágico ou lúdico, afinal, dá pra ver tanta coisa…

Todo mundo olha pras moças bonitas. Só que, depois que elas passaram, será que alguém repara naquela torcidinha de pescoço, na maior cara de pau, do cara ao lado? Eu reparo. E quando quero, faço até melhor. Primeiro que não gosto dessa admiração excessiva pelas costas de ninguém. Depois, pra quê a pressa? Se a moça já passou e não deu pra ver, basta uma meia-volta, um contorno no quarteirão pra resolver a situação. Curioso, gosto de vê-las de frente, de perto se aproximando, do rosto bonito, dos olhos, da boca… Mas, nessas de ser curioso, também já passei por cada uma… Melhor deixar pra lá!

Na rua, mesmo quando falta companhia, nunca, porém, se está sozinho. Não existe caminhante solitário, isso eu já vi. A verdade é que todo mundo repara em todo mundo, e a galera da rua tá sempre junta. Quando uma velhinha tropeça, nossa!, é uma multidão. Fulano chama resgate, cicrano ajuda a levantar e beltrano já vem até com copo de água na mão – este não tava andando, mas tava em casa com um olho… Também, por mais egoísta que alguém seja, não tem como não amparar a vovozinha que saiu só pra comprar um agrado pros netinhos. É só reparar na sacolinha, quando ela tá levando alguma: ou tá voltando com um doce da padaria ou com os ingredientes pra fazer um.

Olha, rola até sentimentalismo, se for ver. Vem cada lembrança. Outro dia mesmo, eu, de um lado, indo; do outro, vindo um casalzinho de amigos mais ou menos de uns 12 anos de idade: um gordinho e a uma loirinha – dessas que vai ficar bem bonita quando crescer. Ai… Quanto tempo já não fora desde que se apaixonara pela loirinha? Aqueles dois ainda teriam muito para conhecer um do outro, muito mais para sentirem, muito para chorarem; talvez teriam muito até se separarem. E outras tantas memórias vão enquanto tantas outras vêm.

O problema é que, normalmente, a gente não aproveita o passeio. A gente só anda em frente, só olha pra frente e com pressa, muita pressa. E só queremos que seja assim, tem sempre alguém nos esperando, estamos sempre atrasados. Para quê eu não sei. Eu sei que não dá pra viver assim. Por isso gosto mesmo de andar a pé, porque quando o fim chegar e não houver mais caminho, do que é que terá valido a pena a caminhada?

[Crônica feita só para uma aula. Como acabei gostando dela, resolvi postá-la aqui.]

Nov
15

por Lobão

“Quem é você
Quem é você
Nas minhas mãos
Nas minhas mãos vazias
Você assim tão impossível
Em vão
E o impossível
É uma droga poderosa pra nós,
Reféns do que virá

Quem é você
Quem é você
Embalsamando ameaças
Numa fileira de santos
Que nenhuma beleza ilumina

E o impossível é uma droga perigosa o bastante
Para se inventar a fé
Para se acreditar na fé
Em alguma salvação
E eu deslizo
Pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Um cobertor

Talvez algumas lágrimas
Nos tornem um pouco mais inchados e vazios
É rapa…
Não há estilo sem fracasso

Talvez alguns sorrisos nos deixem um pouco mais silvio santos das nossas
[torturas
Pois a salvação floresce feliz como um escárnio

Lá onde os deuses não morrem nunca
Mas são recauchutados debaixo de nossas almas
Numa salvação que só interessa aos assassinos e aos santos
Numa salvacão triste como qualquer céu
Como num domingo
Como num suicídio
Como num êxtase
Que se desaprende
Eu
Deslizo pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Um cobertor
Deslizo pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro

E a devastação da vida
Uma declaração de amor…”

Só damos atenção a algumas músicas depois que estas nos fazem sentido. Já a tinha em minha coleção há um bom tempo, mas só agora que criamos um forte laço – culpa dessa tal devastação da vida.

Nov
13

Não vê? Vai chover
Se ficar assim,
Na dor, teu prazer
Caindo só de mim

E querendo ser
Nessa hora o fim.
E doente de ter
A ilusão do sim

Como um só querer,
Razão pra viver,
De um gosto doce

De quem está a fim.
E acabar assim,
Se realmente fosse…

Nov
09

Não tomaria a iniciativa de boicotar o ENADE, sem antes entender do que se tratava realmente. Já adianto aqui que a prova e todos os poréns em torno dela foram muito bem debatidos dentro da PUC-SP, e, por isso, optei por me alinhar à posição de boicotar a prova, defendida pelo movimento estudantil. Mas há alguns outros pontos que eu, pelo menos, gostaria deixar citados aqui.

  • Se a prova tem como objetivo avaliar o desempenho dos estudantes de nível superior, por que as duas principais Universidades do país – USP e Unicamp – decidem já no começo do ano por boicotá-la? Deveria ser prioridade de uma avaliação que pretende ser séria preocupar-se com isso e adequar-se, não às especificidades destas duas instituições, mas sim ao nível intelectual do debate e do conhecimento exigido e produzido nelas.
  • De fato as questões eram ruins. O foco era essencialmente tecnicista – para não dizer burro -, como em uma das perguntas específicas em que se queria saber “qual o nome da reunião feita, num jornal antes dos repórteres irem à rua, entre um editor e seus subordinados?”. Isto não avalia desempenho ou qualidade do curso de ninguém. Mesmo uma abordagem conteudística seria mais interessante. A propósito – foi até já a público -, em outra questão – mal formulada por sinal – o nome de nosso presidente da República – Luiz Inácio Lula da Silva – aparecia grafado de maneira errada – Luís Inácio Lula da Silva.
  • Visto que a relização do ENADE é obrigatória e que muitos estudantes acabam prejudicados pelas próprias Universidades, as quais exigem dos estudantes a facção dele e não permitem que estes retirem o diploma em caso negativo, como não há uma rede de transporte público suficientemente preparada para um evento de escala nacional? Além de boa parte dos locais de realização do exame serem um tanto quanto de difícil acesso, o sistema de ônibus da SPTrans deixou estudantes na mão. Posso relatar meu caso pessoal no qual estava prevista para 11h25 a saída do ônibus que eu tomaria até o local da prova, mas que foi só chegar ao Term. Barra Funda – de onde sairia – lá para perto das 12h20; tive sorte e consegui chegar à tempo, porém umas outras estudantes que estavam no mesmo transporte e que iriam para um local ainda mais à frente não conseguiram.
  • Não deveriam estar listadas no exame as capacidades e habilidades esperadas por um estudante de tal curso? Como estudante de jornalismo, parece-me que os critérios nivelavam eu e meus colegas por ignorante. Das perguntas específicas feitas, qualquer estudante, de qualquer área, seria facilmente capaz de respondê-las. Isso sem contar as questões dissertativas que não tinham o mínimo de abordagem crítica ou reflexiva à área de atuação dos iniciantes ou concluintes – falo a respeito da prova de Jornalismo. Afinal, qual o objetivo de fomar, educar, cidadãos que não poderão entender ou pensar sobre os paradigmas de seus próprios exercícios profissionais? Assim não está claro qual o projeto de nação nos é pretendido – se é que há um.
  • Na cartilha que foi distribuída a mim e aos estudantes de meu curso, aparecia citado o nome de Cristovam Buarque (PDT-DF), atual senador da república e um dos primeiros ministros da educação do governo Lula, quando permaneceu durante apenas 1 ano no cargo. Sempre tive uma boa visão dele e ele sempre foi um grande defensor das políticas de educação como forma do país progredir, fica aqui a dúvida de se o Senador concordou e ainda concorda com os critéiros de aplicação do ENADE.

Estou deixando de lado muito outros pontos, que já foram, no entanto, abordados na cartilha sobre o ENADE elababorada pelo movimento estudantil. Só termino confirmando que, contra todo esse sistema de mil uma falhas, estou certo, certo mesmo, de que os elefantes foram muito bem usados na prova de ontem. Espero apenas que consigam de fato incomodar.

Nov
08

ENADE09